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Sinal verde para os pecuaristas?

Sinal verde para os pecuaristas?

“A forte desvalorização da moeda local durante o primeiro semestre de 2016 corroeu bastante a rentabilidade da pecuária brasileira, atividade combalida pelo alto custo das rações/concentrados”


    De acordo com as previsões do International Grain Council (Grain Market Report 473 - 2017, January 19th), a oferta global 2016/2017 poderá alcançar quase 2,6 bilhões de toneladas de grãos (safra de 2,094 bilhões mais estoque de 0,475 bilhão), enquanto a demanda aproximar-se de 2,1 bilhões, resultando no maior inventário de passagem (507 milhões de toneladas) desde meados da década de 1980, ou seja, 6,7% acima do apurado na safra 2015/2016. Já o levantamento para a mesma safra 2016/2017, elaborado pelo Departamento de Agricultura dos EUA/USDA (World Agriculture Supply and Demand Estimates - 2017, February 9th), prevê colheita de mais de 2,5 bilhões de toneladas de grãos e estoque de passagem resultante de 617 milhões de toneladas. A despeito das diferenças apuradas nos relatórios (praticamente insignificante, no caso do milho e da soja), os estoques globais vêm se recuperando depois das atípicas alterações que em anos anteriores abateram violentamente as lavouras nos Estados Unidos e comprometeram também a produtividade na América do Sul. O alívio contabilizado no referido relatório americano antevê a produção mundial de 1,040 bilhão de toneladas de milho (1,045 bilhão; IGC), 337 milhões de toneladas de soja (334 milhões; IGC), 228 milhões de toneladas de farelo de soja, com respectivo consumo de 1,028 bilhão e 225 milhões de toneladas, contabilidade que resulta em 2017 na passagem de aproximadamente 217 milhões de toneladas de milho, 80 milhões de toneladas de soja e 11 milhões de toneladas de farelo de soja (respectivamente 21%, 24% e 4,8% da demanda global em 2016/2017). A generosa disponibilidade vindoura (safra da soja superando 117 milhões de toneladas e a do milho se aproximando de 385 milhões nos Estados Unidos; USDA e condições favoráveis ao plantio/produtividade na América do Sul, apesar de perdas razoáveis na safra de soja argentina, sob influência de fortes chuvas em janeiro/fevereiro), decerto, será influenciada pela conjuntura econômica contemporânea. A flutuação do dólar e do preço do petróleo, o arrefecimento econô- mico chinês, a expansão monetária, alta dos juros e adição de etanol nos Estados Unidos, a recuperação europeia comprometida por conta da saí- da do Reino Unido/Brexit, a amplitude de contágio do protecionismo comercial, etc., representam variá- veis que podem limitar ou, ao contrário, até gerar elevações dos pre- ços durante o ano de 2017, e assim modular, para cima ou para baixo, a demanda da cadeia produtiva de proteína animal em todo o mundo e principalmente no leste asiático. Nesse caso, é importante salientar que a competitividade do produto agropecuário pode ficar comprometida e o faturamento em moeda nacional diminuir, enquanto que a melhora da economia mundial poderá gerar maior demanda pelas commodities e fortalecer os preços, o que na prática, poderia compensar as perdas provocadas por um câmbio valorizado no Brasil. No ano passado, o preço das commodities declinaram em concomitância ao índice de preços dos alimentos da FAO (cereais, óleos vegetais, laticínios, açúcar e carnes) que vem encolhendo consecutivamente nos últimos cinco anos. A média alcançou 161 pontos e retrocedeu 1,5% em relação ao apurado em 2015, principalmente influenciada pela queda dos cereais e carnes (FAO Food Price Index, 12/01/2017). Calculando a média de preço anual, a saca de 60kg do milho retrocedeu 4,5% em dólares (U$ 8,90 em 2016 ante U$ 8,50 em 2015; Bolsa de Chicago/CME), enquanto no mercado brasileiro avançou 52% em reais (R$ 44,40 em 2016 ante R$ 29,10 em 2015; CEPEA/USP). No caso da soja, a saca de 60 kg incrementou apenas 4,8% em dólares (U$ 21,80 em 2016 ante U$ 20,80 em 2015; Bolsa de Chicago/CME), enquanto no mercado doméstico avançou o dobro, ou 11% em reais (R$ 81,40/2016 ante R$ 72,60/2015; CEPEA/USP). Por sua vez, a forte desvalorização da moeda local durante o primeiro semestre de 2016 corroeu bastante a rentabilidade da pecuária brasileira, atividade combalida pelo alto custo das rações/concentrados, cujo ápice se deu em maio-junho (R$ 53,00/saca 60kg milho e R$ 1500,00/tonelada de farelo soja, Jox e dólar cotado em R$ 3,60; Boletim Focus Banco Central). Desde então, a tendência baixista do dólar propiciou alívio nos preços domésticos do milho e do farelo de soja, alcançando em janeiro/2017 (respectivamente, R$ 37,36/ saca 60kg e R$ 1023,00/tonelada; Jox) e dos outros insumos indexados ao dólar, cotado em R$ 3,40; Boletim Focus Banco Central), cenário favorecido também pelas revelações da Conab apontando para a safra brasileira 2016/2017 de quase 106 milhões de toneladas de soja e 87,5 milhões de toneladas de milho (5º. Levantamento/Fevereiro 2017). Conforme citado anteriormente, a depreciação, caso persistente, pode afetar razoavelmente as perspectivas futuras de crescimento dos países predominantemente exportadores das commodities, particularmente o Brasil. Apesar da Conab projetar preços de milho e soja mais altos em relação às médias do ano passado (provavelmente porque a safra ainda não está livre de sofrer com eventuais intempéries, possibilidade de excesso de chuvas ou proliferação de pragas no fim da colheita, além dos conhecidos transtornos gerados pelos gargalos de armazenagem e escoamento), a maioria dos observadores acredita que a pecuária não será atormentada pela falta, muito embora, é mandatório alcançar preços que remunerem adequadamente a agricultura.


Fonte: Sindirações